Entrevista: Martim Aguiar

Entrevista: Martim Aguiar

Martim Aguiar é o novo responsável pelas seleções nacionais. Quisemos saber em primeira mão as respostas que o novo selecionador tem para as perguntas que todos querem fazer. 

Após quatro épocas como técnico principal do GD Direito, período onde se sagrou campeão nacional por três vezes, qual o motivo que o leva a aceitar o convite da FPR para assumir o cargo de treinador principal da seleção portuguesa de XV?

Quem tem a sorte e o prazer de fazer o que gosta, como é o meu caso, tem a ambição e o sonho de treinar a seleção. Sei que é um grande desafio mas sinto-me preparado.

Não posso deixar de agradecer mais uma vez ao GDDireito, por tudo o que me deu enquanto jogador e como treinador, a toda família GDD, em especial ao João Fragoso Mendes e a todos os jogadores que tive o prazer de treinar. A todos muito obrigado.

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Foi a primeira opção da direção liderada por Luís Cassiano Neves para substituir João Luís Pinto, no final de 2015. Rejeitou o primeiro convite por que razão?

A vida é feita de ciclos, o meu com o GDDireito ainda não tinha acabado, tinha grande compromisso com o clube, direção e principalmente tínhamos com os jogadores muitos e difíceis objetivos por cumprir.  A seleção precisava de alguém com compromisso total e exclusivo, por isso resolvi esperar pela próxima oportunidade, felizmente chegou e aqui estou mais motivado que nunca.

 

O que lhe foi pedido pelos responsáveis federativos?

O mais importante foi aproximar a Federação dos clubes, quanto melhor estiverem os clubes, melhor vai estar a seleção e quanto melhor estiver a seleção, melhor vão estar os clubes! Os clubes estão a trabalhar cada vez melhor, acreditamos que esta ano ainda vai ser mais visível, e nós na federação temos que apoiar e potencializar esse trabalho.

Do ponto de vista desportivo, existe um projeto a longo prazo e um ciclo que tem o seu ponto fundamental no mundial de 2023. É importante preparar desde já o grupo alargado de jogadores com que vamos contar nos próximos 4 a 6 anos. Mas entretanto, temos objetivos desportivos a curto/médio prazo que passam pelo regresso ao ENC1A, agora Rugby Europe Championship, e outros, quer em XV quer em Sevens, que teremos que discutir internamente.

 

Como será formada a estrutura técnica que vai trabalhar consigo?

O Ian Smith será o nosso Diretor de Seleções, mas terá um papel a desempenhar no campo também, sobretudo ao nível dos avançados.  O João Pedro Varela será treinador, o Diogo Mateus, diretor de Operações das seleções e responsável operacional dos Lobos (XV Séniores), o Francisco Moreira será o diretor Clínico, o Francisco Tavares o Coordenação de Preparação Física, o José Carlos Rodrigues e o Paulo Vital os fisioterapeutas, o José Paixão o Analista de Vídeo.

Pontualmente e durante a época vamos contar com a colaboração do Olivier Azam. Foram também feitos alguns convites para o treino posicional (Luis Piçarra para trabalhar com os formações e o Gonçalo Malheiro para os chutadores).

 

Nos últimos seis anos, a seleção nacional de XV teve seis treinadores principais. Tem um contrato válido até ao final do mandato da atual direção da FPR. Acredita que estão reunidas as condições necessárias para construir um projeto sólido e estável, algo que não existe na seleção nacional de XV desde 2010?

Há uma coisa que tenho a certeza, a estabilidade é fundamental se queremos melhorar o rugby português. O contrato mostra grande confiança da parte da direção no nosso trabalho, e da nossa parte na direção, as condições vão ter que se construir passo a passo, com muito trabalho, comunicação e confiança.

 

Após a presença no Mundial 2007, os resultados desportivos da seleção nacional de XV têm vindo a piorar, anos após ano. O que pode ser feito para inverter esta tendência?

Primeiro deixar de fazer comparações. Tudo mudou, a começar pelo jogo em si. Basta ver que todos os anos mudam as leis, o jogo está em constante evolução, os jogadores são diferentes e toda a envolvência também. Claro que temos que respeitar o passado, e neste caso concreto o melhor período do Rugby Português, mas as comparações a meu ver não fazem sentido.foto-site

Os resultados realmente pioraram devido a muitos fatores internos e externos, mas agora temos que olhar para a frente e tentar inverter essa tendência, aproveitar o que foi bem feito e melhorar os aspetos menos positivos. Há jogadores com muito talento assim como treinadores, é aproveitar isso como base para o futuro.

 

Que impacto terá para o râguebi português a descida para o Rugby Europe Championship Trophy?

Só daqui a uns anos o vamos saber. Por um lado ninguém queria essa descida, por outro pode-se ter aberto uma grande janela de oportunidade. Cabe-nos a nós garantir que retiramos o melhor deste contexto competitivo.

 

Portugal vai defrontar a Ucrânia, a Moldávia, a Holanda, a Polónia e a Suíça no Rugby Europe Championship Trophy. Quem serão os principais rivais da seleção nacional na luta pelo primeiro lugar?

 

Neste momento o que sabemos é que estamos todos muito perto uns dos outros no Ranking da World Rugby, a Ucrânia está em 27º e nós em 30º lugar, por isso não vai ser fácil com nenhum adversário.

Ainda estamos a conhecer e a observar os adversários, o mais importante é preparar bem o primeiro jogo fora com a Suíça, sem esquecer os jogos de preparação antes com a Bélgica e em principio com o Brasil. Neste capítulo de observação e estudo das outras seleções, não posso deixar de frisar o ótimo trabalho do nosso vídeo analista José Paixão.

 

O primeiro jogo será na Suíça, a 19 de Novembro, já a contar para o Rugby Europe Championship Trophy. À semelhança do que aconteceu nos últimos jogos de Portugal, a equipa será formada quase exclusivamente por atletas que alinham no campeonato nacional?

Todos os jogadores elegíveis são opção, a seleção nacional tem sempre que apresentar os melhores jogadores disponíveis que façam a melhor equipa.

 

Nos últimos anos foram poucos os jogadores que alinham fora de Portugal que fizeram parte das convocatórias da seleção nacional. Que papel vão ter no seu projeto os atletas que atuam no estrangeiro?

Não vale a pena falar do passado, sabemos bem o que queremos e as dificuldades que vamos encontrar na gestão da equipa, vamos preparar e planear com mais tempo e trabalho.

Os jogadores que jogam em Portugal têm a vantagem de treinar mais vezes juntos e de se conhecerem melhor. Os que jogam fora têm a vantagem de jogar em campeonatos muito mais competitivos, apesar de estar confiante que o nível do Campeonato Português este ano irá subir.

 

A descida para o Rugby Europe Championship Trophy não hipoteca as hipóteses de Portugal qualificar-se para o Mundial 2019. Há tempo para construir uma equipa capaz de conseguir lutar pela presença no Japão?

Não vamos falar de objetivos sem antes estar, falar, sentir a equipa. Os jogadores são o mais importante para estabelecer objetivos e será dentro do balneário que o vamos traçar. Agora o que interessa é o primeiro jogo oficial com a Suíça.

 

Vários jogadores que estiveram no Mundial 2007 afirmaram publicamente que falta espírito de sacrifício e alma às novas gerações. O Martim Aguiar conhece bem as duas realidades, primeiro no papel de jogador e agora como treinador. Concorda que falta compromisso à maioria dos jovens que despontam atualmente no rugby português?

 

Não concordo. Como já disse anteriormente, muita coisa mudou, os jovens são diferentes, têm outros estímulos, apenas temos que chegar a eles de formas e maneiras diferentes. Posso afirmar que há em quantidade e qualidade muito talento, ou seja, o mais difícil já temos, agora é potencializar ao máximo esse talento.

Aos Lobos que estiveram no Mundial de 2007, além de agradecer mais uma vez tudo o que fizeram pelo Rugby Português, aproveitamos para os convidar e desafiar para estarem mais perto dos novos Lobos e transmitirem toda a sua “bagagem”, mística e ambição.

 

Portugal tem conseguido resultados promissores nos escalões de formação, mas alguns dos jogadores dessas seleções jovens abandonam a modalidade na transição para os seniores. O que se pode fazer para conseguir um maior aproveitamento desses talentos?

Não nos podemos esquecer que os jogadores das grandes nações do rugby mundial, com quem nós conseguimos atingir bons resultados nos escalões mais novos, começam a partir daí a ser profissionais a tempo inteiro.

Não deixa de ser o maior problema do desporto português, temos que olhar para estas idades com mais atenção e carinho. As competições internas são pouco apelativas e deixam de competir a nível internacional, isto aliado às universidades, trabalhos, emigração, entre outros, leva a que se percam muitos jogadores e futuros Lobos.

Vamos fazer os possíveis para que os jogadores que abandonam a seleção Sub 20 continuem a competir a nível internacional com uma equipa de desenvolvimento antes de chegar ao patamar mais alto.

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Na sua opinião, qual a importância que os sevens devem ter no rugby português?

Essa pergunta é muito complicada, vamos ver este ano fora do circuito mundial. Para os jogadores competirem a um nível altíssimo, contra as melhores seleções do mundo em grandes palcos, o circuito mundial dava essa visibilidade e oportunidade.

Este ano irá ser mais uma ferramenta de desenvolvimento dos jogadores, mais uma importante etapa para os jogadores jovens chegarem à seleção de XV, sem esquecer os objetivos da seleção nacional de sevens, e os jogadores que por opção (que nós respeitamos) só queiram jogar esta variante.

Fisicamente, tecnicamente a até taticamente é muito importante para dar outros importantes apetrechos aos jogadores.

 

O selecionador nacional de sevens é o António Aguilar, com quem já trabalhou no GD Direito. Isso será uma vantagem?

Não, felizmente tenho muitos e bons amigos na estrutura da FPR, mas o que importa é a competência, o trabalho e a partilha entre todos dentro da federação e do rugby português.

Fotos: Miguel Rodrigues e João Peleteiro

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