Entrevista a Gonçalo Uva

Entrevista a Gonçalo Uva

Com 32 anos e 92 internacionalizações, número apenas superado pelo seu irmão Vasco, Gonçalo Uva é um dos actuais líderes da Selecção Nacional. Um dos Lobos do Mundial 2007 e figura respeitada no rugby nacional, o jogador do GD Direito recorda em entrevista à Federação Portuguesa de Rugby alguns dos momentos mais marcantes da sua carreira e confessa o desejo de atingir os 100 jogos com a camisola de Portugal.

– Que recordações tem do primeiro treino de rugby?

Lembro-me que foi na semana a seguir a ver o meu primeiro jogo. Tinha ido almoçar com um amigo do meu pai, antigo presidente da FPR, e depois do almoço fui com o filho dele ver um jogo. Quando voltei, disse aos meus pais que queria experimentar e na segunda-feira seguinte lá estava eu. A sensação foi tão boa que nunca mais parei…

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– A transição para sénior é uma fase complicada na vida de qualquer jogador. O que o levou a nunca prescindir de praticar este desporto?

Sempre tive um apoio muito grande em casa para praticar desporto, fosse qual fosse. A ideia de que estar bem fisicamente era tão importante como a de estar bem na escola. Os meus pais sempre me incentivaram a jogar e a fazer compromissos com o clube, cabendo-me a responsabilidade de conciliar os estudos com os treinos para que tivesse sucesso nos dois. Vi muitos amigos, cheios de talento, deixar de jogar pelas mais diversas razões e quer eles quer eu ficamos com pena. Podíamos ter uma base de recrutamento bastante mais alargada, o que nos iria tornar mais competitivos. Além de tudo isto, tinha uma vontade imensa de ser melhor e de me tornar profissional.

 

– O que é que o rugby tem que mais nenhum desporto tem?17159310_1067405603364117_8601721362293786596_o

O rugby tem tantos valores como outros desportos colectivos, mas nos escalões de formação cultivam-se mais esses mesmos valores, nunca deixando que o individual se sobreponha ao colectivo, fazendo com que o espirito de equipa cresça e seja a base para uma escola de vida. A resiliência e o espirito de sacrifício vão-se ganhando ao longo dos anos porque no rugby nada é dado, tudo tem de ser conquistado. Quem cresce no rugby sabe também que amizades como as que se criam com quem se partilha uma camisola é difícil de igualar. Há uma máxima que me tem guiado desde cedo: “Não é preciso ser de sangue para se ser irmão.” Acredito que tenho irmãos em todas as equipas onde joguei.

 

– Se não fosse jogador de rugby, que outro desporto praticaria?

Houve uma altura em que alternava treinos de ténis com os de rugby. Treinava todos os dias e quase deixei o rugby em detrimento do ténis. Estive muito perto de me inscrever numa academia em Barcelona. Acreditava que na minha vida ia ser profissional no desporto que escolhi, o que acabou por acontecer.

16825834_600794020131360_2153355994235254885_o– Como é a sua vida extra rugby?

Já encarei o rugby de formas bem diferentes. Desde os 19 anos que o rugby era principal prioridade e isso manteve-se até bastante tarde, visto ter sido profissional durante seis anos em França. Sempre disse que em Portugal não o seria, e fico orgulhoso por isso. Em Portugal jogo pelo amor ao desporto e pela amizade. Hoje em dia, com família e trabalho, o rugby deixou de ser prioridade. Treino no clube duas vezes por semana, faço ginásio de manhã ou à hora do almoço e tento-me manter bem para atingir o meu objectivo principal: as 100 internacionalizações.

 

– Como é que a experiência no rugby se reflecte na sua vida profissional e pessoal?

O rugby por tudo o que me tem ensinado tornou-me melhor pessoa e melhor profissional. Todos os valores aprendidos têm sido armas importantes para o sucesso que procuro, quer familiar quer profissional. Acho que o mundo seria melhor se todos jogássemos rugby.

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– Como se prepara para os jogos?

Não sou supersticioso e isso facilita-me muito a preparação. Não tenho cuecas preferidas ou uma t-shirt da sorte. Ouço qualquer tipo de música até uma hora antes do jogo e depois gosto de ouvir rock português, como Xutos e Pontapés ou Tara Perdida. Habituei-me a ligar o antebraço esquerdo depois de uma lesão a placar e hoje em dia não jogo sem essa ligadura. Ligo os dedos que me estão a doer nesse momento, e penso sempre na minha família antes de entrar em campo.

 

– Há algum jogo na sua carreira que tenha sido especial?

Esta é difícil… Nunca me esquecerei do jogo contra a Nova Zelândia e de encarar a Haka, no entanto o mais memorável foi o da qualificação para o Mundial em Montevideo, no Uruguai. Se não fosse esse jogo, o Mundial 2007 tinha sido apenas uma miragem.

 

– O que ganhou com a experiência profissional que teve em França?

Em termos pessoais foi muito importante ter jogado a nível profissional. Foi a confirmação de que a aposta no rugby tinha sido ganha. Continuo a ser o mesmo Gonçalo apaixonado por esta modalidade tão pouco reconhecida no nosso país. Levarei para a cova muitas amizades e muitas histórias bem vividas nesses anos em França.

 

16797805_600793806798048_6410974295022045838_oO que muda entre representar o seu clube e a Selecção Nacional?

A única coisa que muda é a intensidade, especialmente nos jogos mais duros, e isso faz com a haja maior concentração. Nos jogos decisivos com o clube essa concentração também está lá. No entanto, a filosofia é sempre a mesma quando entro para jogar: tirar o maior partido e divertir-me o mais possível. No dia em que não me divertir, abandono.

 

– Quem são as suas grandes referências nacionais e internacionais na modalidade?

A nível nacional destaco o meu irmão Vasco, mas houve muitos outros que me ensinarem o que é o espirito de sacrifício, o prazer e o orgulho em representar Portugal. No panorama internacional admiro o Richie McCaw. Como equipa, vibro com os Pumas.

 

– Como será a sua relação com o rugby após deixar de jogar?17192373_1067406316697379_8187370017493122956_o

Já pensei várias vezes quando será, mas nunca como. Gostava de deixar a Selecção no Rugby Europe Championship, já depois de ter celebrado as 100 internacionalizações. Quando me deixar de divertir e sentir que não sou útil para as equipas que jogo, penduro as botas de vez! Nos primeiros anos pós rugby, gostava de ser apenas adepto e recuperar alguns fins-de-semana. Depois disso, não descarto a hipótese de ajudar, como treinador ou como dirigente.

 

– O que é que o rugby lhe deu e o que é que ainda falta dar?

Deu-me grande parte da minha vida e dos meus amigos, histórias para contar e outras nem tanto… Tudo o resto foi conquistado, bem como as 100 internacionalizações que tanto procuro! Não sei se é defeito ou não, mas sempre me sentirei em divida para com o rugby.